Odeio “minorias”

Cotidiano 3 comentários

Tenho um colega no serviço que é vegetariano. Tudo bem, nada contra. Eu como meu bife mal-passado num canto, e ele se sacia com a salada dele no outro. Nenhum dos dois tentou convencer o outro a entrar para o “lado negro da força” e todo mundo convive numa boa. Devia ser assim com todo mundo. Mas não é.

Toda minoria é radical e absoluta. Meu colega é uma exceção dentre o pequeno grupo dos comedores de mato. No mínimo uma vez por mês você vê nos jornais um protesto de vegetarianos contra o consumo de carne. E lá vão eles para as ruas com os corpos pintados, embalados como um pedaço de alcatra no supermercado, ou só com uma folhinha de alface cobrindo as partes íntimas (que ironia, o único atrativo dos protestos vegans é… a carne, literalmente). É o tipo de manifestação que o povo olha, solta um entediado “ah”, e segue com sua vidinha. Fora aquelas propagandas chocantes e/ou engraçadinhas, tentando provar que quem come salada é melhor de cama do que um comedor de carne.

Agora, imagina o que acontece se eu, um tiranossauro rex no ápice da cadeia alimentar, resolvesse fazer uma passeata a favor do consumo de carne? Iam querer me matar! Seria comparado a Ivan, o Terrível, pela minha impiedosidade contra os pobres bichinhos. E não ia demorar muito para o meu protesto pacífico virar uma praça de guerra. No dia seguinte, e-mails me ameaçando, abaixos-assinados circulando pelo mundo pedindo a minha excomungão social e o massacre moral perante a mídia.

Pior do que as minorias radicais, são as minorias impostas pela sociedade e pelo governo. Essa história de cotas universitárias para negros e pobres que o Governo criou. Isso me cheira a “vamos criar uma solução rápida para uma cagada que nunca conseguimos arrumar”, que é a qualidade do ensino fundamental e médio. Como se um estudante negro não tivesse condições intelectuais de chegar no ensino superior pelos seus próprios méritos. Fora que eu não posso chamar um negão de negão, pois posso ser acusado de preconceito. De agora em diante quem me chamar de branco, branquinho ou branquelo vai ter que responder na justiça por discriminação aos… aos… sei lá, caucaso-brasileiros?

Eu mesmo faço parte de várias minorias, a dos nerds, dos gordos, (apesar de não ser gordo GORDO, sabe?), dos que não bebem… Neste caso é chato ser dessas minorias, porque as pessoas querem que você mude. “Bebe aqui uma cervejinha”, “Vamos lá naquela balada que só toca house”, “Já pensou em procurar uma academia? É saudável e faz bem” são algumas das frases que ouço diariamente. E juro, me controlo para não dizer um FODA-SE na cara de quem as pronuncia. E em verdade lhes digo: no dia que eu resolver ser radical para defender as minorias que represento, você vai achar o MST um movimento brando e pacífico.

Só sei que o mundo seria um lugar muito melhor se cada um pudesse ser o que é, sem ser coagido a mudar, sem se ofender com o próximo, e sem se achar excluido da sociedade a ponto de se auto-intitular pertencente a uma minoria.

A pergunta que ninguém fez a Chuck Berry

Cotidiano, Mídia, Vitrolão, Vídeos 2 comentários

Em 2006, o seu contemporâneo Jerry Lee Lewis lançou um CD de duetos intitulado “Last Man Standing” (O último homem de pé). O senhor encara isso como uma afronta?

Essa é a pergunta que ninguém fez a um dos gênios do rock, durante sua turnê no Brasil. Chuck Berry toca amanhã em Porto Alegre e, ao que tudo indica, pega o primeiro vôo para fora do país após o fim do último acorde. Vai embora sem responder a minha pergunta. Mas com a certeza que os nossos jornalistas, além de mal informados, não são capazes de formular outras questões além das tradicionais “o que você mais gostou no Brasil?” e “quais os músicos brasileiros que você conhece?” para os que vem de fora.

Explico o porquê da minha pergunta: Em uma apresentação para a TV no final dos anos 50, o produtor do programa conseguira reunir no palco duas lendas do rock - o consagrado Berry, e um até então desconhecido pianista chamado Jerry Lee Lewis. Apesar da disparidade da fama, os dois já mantiam uma rivalidade que ultrapassava os limites da música.

O acordo feito com os músicos era que o show principal seria do Chuck Berry, e que a abertura ficaria com Jerry Lee. Tudo acertado, cada um se preparando em seu camarim, e a platéia lotada no anfiteatro aguardava o espetáculo.

Jerry Lee Lewis sai do camarim em direção ao palco, onde o piano lhe esperava. Todos na produção estranhavam o fortíssimo cheiro de gasolina que estava empregnado no músico, mas ninguém quis comentar nada, com medo de uma represária ou um “piti” de artista.

O que as pessoas assistiram naquele momento foi um Jerry Lee insandecido, tocando como se fosse o último dia da sua vida. A galera delirava. E isso que era apenas um show de abertura. Para encerrar, enquanto tocava um de seus maiores sucessos, “Great Balls of Fire”, puxou de dentro do casaco uma garrafa de coca-cola cheia de petróleo puro. Derramou o líquido em cima do piano, tocou fogo, e continuou a música, sem se importar com as chamas! O cara é louco! O público urrava como animais excitados! Era o ápice da atitude rock’n'roll!

Terminado o show, a galera ainda continuava agitada. Jerry Lee saiu do palco, foi direto para o camarim de Chuck Berry e disse “Agora faz melhor, negão”. Ninguém se lembrou do outro show, e todo mundo só mentou a performance do “The Killer”, como Lewis passou a ser chamado.

Ah, sim. Pelo “teor” da apresentação, a transmissão foi cancelada.

Dá pra ter uma idéia assistindo ao clipe do filme “Great Balls Of Fire”, onde Denis Quaid interpreta o Matador:

P.S.: Era pra este post ser uma homenagem a Chuck Berry, mas fugiu ao meu controle. Acho que é raiva de não poder ir ao show…

Tentando chegar até você

Vitrolão 1 comentário

Tenho andado por quilômetros através dos campos. Viajo noite e dia correndo pelo caminho, apenas para chegar até você. Quando eu li a sua carta onde você disse que me amava de verdade, tenho viajado noite e dia, correndo pelo caminho para tentar chegar até você.

Toda vez que eu leio sua carta de amor, meu coração começa a cantar. Existe uma distância muito grande entre nós, mas para mim, ela não significa nada. Eu só preciso te ver, meu amor. E apesar de todas as coisas que aconteceram comigo,continuei a viajar dia e noite, correndo na estrada, para tentar chegar até você.

Bem, se eu tivesse que fazer tudo isso novamente, seria exatamente o que eu faria. Passar dias e noites viajando e correndo, só para chegar até você. E nada poderia me impedir de conseguir ou me manter longe da sua presença, depois que sua carta de amor disse o quanto você realmente me ama de verdade. Até Deus sabe que eu te amo. Foi Ele que me ajudou, iluminando meu caminho quando tudo era escuridão, só para tentar chegar até você.

Bonita declaração, não? Trying to get to you é uma música feita por uma dupla de composiores da gravadora Mercury, McCoy e Singleton, em 1954, que ganhou vida na voz do The Eagles (que ficaram famosos com outra música). Mas foi em 1968 que essa declaração de amor ganhou força, sentimento, e um intérprete a altura:

Para os casais, feliz dia dos namorados. Para os solteiros, um dia a nossa hora chega!

Realização

Cotidiano, Mídia 2 comentários

Eu estou na sagrada atividade do jornalismo há quatro anos. Neste curto período, teve a oportunidade de entrevistar diversas personalidades econômicas e políticas. Deputados, vereadores, empresários de multinacionais, presidentes de entidades variadas, diplomatas internacionais… Mas nada disso se compara a entrevistar a pessoa que influenciou a sua vida e marcou uma geração.

O sonho de um guri de cinco anos de idade se realizou. Demorou duas décadas, mas se realizou.

Sergio_Mallandro

Aguardem a entrevista na edição de julho da revista Void. Glu-glu piu-piu e salci-fufu pra vocês.

Esclarecimentos

Cotidiano 3 comentários

Olá pessoal!

Nos últimos dias, o servidor onde eu hospedo o blog sofreu o ataque de um hacker. Como consequência, todos os blogs hospedados sofreram uma baixa, além de perderem posts e comentários feitos após o dia 10 de maio. Agora estou tentando resgatar as postagens antigas e os comentários feitos até então e republicá-los.

Claro que, em função da procura, tive que dar uma prioridade ao post com a polêmica do seu Popô, que está aí embaixo. E o tio, que nem jornalista é, deu uma entrevista psicodélica aqui, pedindo desculpas aos alunos. Vale a pena ler para tentar entender e se questionar como esse tipo de profissional consegue trabalhar com um bem tão precioso para a sociedade, que é a informação.

Nesta semana, muitas coisas aconteceram também, que impediram que eu me dedicasse mais ao blog. Trabalho, faculdade, Semana da Comunicação (que vai render um post interessante, onde - vejam só - concordarei com o Popô em algumas coisas). E é claro, estou planejando algumas novidades, tanto para cá, quanto para outros meios.

Enfim, estamos voltando a nossa programação normal.

Carta aberta à Políbio Braga

Mídia 8 comentários

Explicando rapidamente, o jornalista Políbio Braga colocou uma nota em seu site, criticando a atitude da Unisinos, universidade onde eu estudo, em chamar o MST para palestrar aos estudantes de comunicação. Eu não sou lá um defensor do MST, eles têm mais a minha crítica do que o meu apoio. Só que o dito “jornalista” pegou pesado ao ofender os estudantes de jornalismo, principalmente os da Unisinos, além de debochar da resposta dada à ele pela instituição.

Como o site do senhor Políbio Braga é tão funcional quanto suas idéias, não tenho como postar os links para elas. Aos mais curiosos, sugiro usar o sistema de busca da página dele pelas palavras chaves “MST” e “Unisinos”. Abaixo, a minha resposta:

Prezado Políbio Braga;

Acompanhei as notas no seu site sobre a palestra proferida na Unisinos pelos membros do Movimento Sem-Terra (MST). Como estudante de Jornalismo, decidi me manifestar, principalmente por não ser um defensor do movimento o qual o senhor classifica como “terrorista”. Porém, isso não impede de discordar da sua opinião.

Primeiramente, por mais que o senhor acredite em fazer um jornalismo dito opinativo, as suas idéias poderiam ser expressas de outra maneira, sem debochar o direito de resposta da gerência de comunicação da Universidade. Os seus grifos no meio do texto demonstram uma infantilidade de lidar e compreender o tema. Este tipo de agressão só acontece quando uma pessoa não possui argumentos suficientes para fazer o debate fluir. Isso, com certeza, não é digno de alguém que recebe a alcunha de jornalista e se auto-intitula como “o principal blog político do sul do Brasil”.

Em outro momento, o senhor critica a formação de futuros jornalistas pela universidade, o ensino proporcionado por ela, e o “perigo” que a tal palestra oferece aos estudantes. Como há muito tempo o senhor não deve freqüentar o meio acadêmico, asseguro-lhe que mais de 95%, senão a totalidade dos estudantes universitários ingressa no primeiro semestre aos 18 anos, ou seja, em plena maioridade segundo a justiça brasileira. Não são mais crianças que seguem a cabeça dos pais. São adultos que formam opiniões e tomam decisões sozinhos. E tal como a justiça também garante a liberdade de expressão ou de opinião, cabe a eles decidirem se vão assistir ou não à referida palestra.

Aproveito para lhe informar que a grande maioria dos estudantes não é sustentada pelos pais. Eles trabalham em estágios muitas vezes mal-remunerados. São a chamada “mão-de-obra barata e qualificada”. Muitas empresas, como as que aparecem em seu site, demitem funcionários fixos para a contratação de acadêmicos, em busca de um maior lucro. E em busca da experiência na área, de dinheiro para pagar a universidade, o estudante se sujeita a trabalhar tanto quanto um graduado. O senhor deve ter estagiários trabalhando na atualização do site, senão em outras áreas. Se não conhece essa realidade, é por pura ignorância.

Por fim, posso lhe garantir que a Unisinos possui o melhor corpo docente do curso de comunicação. Em nenhum momento vi alunos sendo coagidos dentro da sala de aula por apresentarem opiniões diferentes, sejam elas do âmbito político, econômico ou social. Como bons jornalistas, ouvimos os dois lados da história, diferente do que posso observar em seu site. Creio que, em uma próxima oportunidade, a Unisinos levará alguém para palestrar mostrando o outro lado do MST, como o proprietário da fazenda Coqueiros ou os cientistas da Aracruz.

Encerro pedindo ao senhor que faça como todo bom jornalista que desconhece o mercado: procure se atualizar da realidade antes de disparar farpas desnecessárias por aí. Na Unisinos se faz jornalismo de qualidade, e os futuros profissionais com certeza não precisarão recorrer à polêmica e ao sensacionalismo para provar sua competência perante os demais.

Atenciosamente;
Piero Barcellos

UPDATE (15h41): Resposta do seu Políbio:

Em primeiro lugar, duvido que você tenha escrito o texto, porque os estudantes da Unisinos costumam ser meio analfabetos.

De qualquer modo, quero que saiba que o MST quer acabar com a economia de mercado, com as empresas, os empregos e os jornais, introduzindo o regime da empresa estatal única, emprego estatal único e um só jornal. Nem vou adiante. Se é isto que você quer, faça bom proveito com o MST, mas tenha-me na conta de seu inimigo político e pessoal, não apenas adversário, porque quero empresas atuando num ambiente de livre mercado, empregos que ofereçam oportunidades de avanço pessoal, profissional e salarial, e jornais que disputem entre si as melhores informações e a maior quantidade de leitores e anunciantes, garantindo minha sobrevivência pessoal, familiar e profissional.

Ao chamar o MST para explicar de que modo ampliará o mercado de trabalho para os estudantes de jornalismo, a Unisinos sofisma, mente, engana de maneira torpe, levando a crer que esta organização terrorista e delinquente batalha pela liberdade de mercado, quando propugna justamente pela ditadura econômica e política.

Polibio Braga

….

Tipo… é pra eu ficar com medo?

UPDATE (22/05 - 13h15): Buenas, agora o negócio ganhou status de movimento. Comunidades do Orkut discutindo o ocorrido aqui, aqui e aqui. Pelo que soube, o sr. Popô será processado pela Unisinos. E pra quem estuda na Unisinos, não é analfabeto, e tem blog, ou quer apenas aderir a causa, aí está:

Pseudo-jornalista

Eu ouvi alguém dizendo “pseudo-jornalista” e “Google bomb“?

E dou o assunto por encerrado temporariamente.

Menina de covinhas

Cotidiano Nenhum comentário

Estava lendo o blog do Rodrigo, que falava sobre os desastres ambientais, quando, em determinado momento, me deparei com uma citação que se referia a uma tese defendida pela Bianca Rieth, dona das mais belas bochechas com covinhas. Pronto. Esqueci até do que se tratava o assunto do post.

Se o seu dia está um porre e seu chefe lhe deu um banho de mijo, você bateu com o carro ou pegou um ônibus lotado, ou ainda se você saiu pra balada e ficou com três travestis num motel, não importa. Nada mais importa depois que você presencia o sorriso de uma menina com covinhas. E por mais que eu perca meu tempo tentando explicar o porquê, gastaria toda a minha verborragia aqui e vocês continuariam sem entender. Pra terem uma idéia, Se uma guria de covinhas fosse a mediadora dos conflitos internacionais, nunca mais haveriam guerras.

Da mesma forma, as gurias com as maçãs do rosto bem redondinhas. As mesmas que ficam vermelhas como maçãs argentinas depois de uma ou duas taças de vinho. Despertam o fascínio e a vontade de dar uma mordida de leve.

E o que dizer de uma boca carnuda? A guria não precisa ser necessariamente uma Angelina Jolie. Uma boca carnuda não implica em lábios grandes, pelo menos para mim. Ela pode ter lábios normais, mas a boca faz uma leve curvatura na hora que está falando, que a deixa com um ar sexy.

Porque estou falando sobre isso? Ora, qual o homem que nunca ouviu uma guria se queixando do peso, que precisa emagrecer, mesmo que ela seja perfeita de corpo? Ou do cabelo que precisa de uma chapinha? Isso é ridículo! A coisa mais horrível do mundo é uma guria toda dura de academia! Não tem onde pegar! E o que dizer dessas “patricinhas” que muitas vezes se tornam ícones de beleza pra algumas mulheres? Sério, eu não consigo imaginar essas gurias na cama. Devem achar que sexo é nojento, ou ficam com medo de estragar o cabelo. Aí você vê gurias lindas se estragando por causa de uma maldita “geração photoshop”, onde toda homem tem que parecer um G.I. Joe, e toda mulher uma Barbie.

Prefiro a sinceridade das covinhas femininas às aberrações cirúrgicas e midiáticas.

UPDATE: O próprio Rodrigo, dono do blog onde esse assunto surgiu, também compartilha da mesma opinião.

A Cabana

Ficção Nenhum comentário

Nevava muito naquela noite. E o soprar do vento deixava tudo mais assustador. O cheiro de sangue pairava no ar.

No meio do deserto branco, um casebre se destaca. A fumaça rarefeita saíndo da chaminé denunciava que alí havia alguém tentando se aquecer. E olhando para dentro das paredes de madeira e tijolos, podemos ver a figura de um homem próxima a lareira.

Grisalho, cabelos e barbas compridos, como se não os cortasse a anos. Usava uma roupa grená suja e envelhecida, com alguns rasgões aqui e alí. As ombreiras estilizadas e os pontos de costura definiam o que seria um uniforme militar, e a plaqueta na lapela escrita “Ten. Carlmann” indicava a referência de um nome que ele não ouvia faz muito tempo.

Foi parar alí em uma missão militar mal sucedida. Os pára-quedistas iam saltar em Hamburgo num ataque surpresa à noite. Os malditos nazistas esperavam um ataque terrestre, segundo a fonte. Ledo engano. Ao sobrevoar a oito mil pés de altura, uma rajada de metralhadora rasgou a asa do avião em que estava a tropa, cerca de 30 soldados. Carlmann estava próximo à porta naquele instante, e teve o instinto de escapar do acidente saltando. Infelizmente, os outros soldados não tiveram a mesma sorte, explodindo junto com o avião ainda em pleno ar. Os pilotos alemães não perceberam o corpo em queda livre abaixo deles.

Quando Carlmann abriu o pára-quedas, uma rajada de vento o empurrou para longe do seu destino. Bem longe, diga-se de passagem. Caiu em uma clareira, no meio da floresta. Na queda, percebeu que boa parte de seu equipamento se perdeu. Estava com uma faca, uma pistola, duas granadas, e seu instinto de sobrevivência.

Caminhou na neve por horas a fio. Prestes a perder os sentidos, ergueu o rosto num suspiro, e avistou ao longe uma cabana. As teias de aranha nas dobradiças mostravam que há muito tempo não havia ninguém morando lá. Nem precisou arrombar a porta. Casa simples, móveis de madeira, três divisões - uma para banheiro, uma para quarto, e uma para um armário com suprimentos e armas. Carlmann decidiu ficar alí até a poeira baixar e, quem sabe, a guerra terminar, e os aliados mandarem uma equipe de busca.

Perdeu as contas de quantos dias se passaram desde a sua chegada à cabana. Os inúmeros riscos na parede jã não são mais contados. Ao longe, ouvia barulho de explosões e gritos desesperados, e logo se atirava no chão para se proteger. Em seguida, o silêncio. Pensou que os sons poderam ser fruto da sua mente abalada, mas logo ouvia tudo de novo. Saía poucas vezes da cabana, para caçar. Isso quando não tentava atrair algum animal pequeno para dentro dela. Coelhos, cervos, lobos, e até um urso foram suas refeições. Com as peles, tratava de se aquecer.

Até que naquela noite, ele ouviu algo diferente dos horrores da guerra. “Olá, alguém em casa?” De primeira, não deu bola, achou que era o vento. Na segunda vez, pegou sua winchester e ficou atrás da janela. Como há muito não pronunciava uma única palavra, teve dificuldade ao formular uma frase simples em bom tom: “Iden-identifique-se!”

“Meu nome é Hans, estava caçando na floresta. Foi quando eu ví a fumaça e…”

“Hans!” Gritou Carlmann, com sangue nos olhos! “Hans é nome de alemão, seu nazista imundo!”

O homem do lado de fora ficou em silêncio por alguns instantes. “Nazista, eu? Ei, amigo, acho que ou você está louco, ou bebeu demais. A guerra acabou há mais de 30 anos!”

“Tem certeza?”

“Absoluta.”

“E você está sozinho aí fora?”

“Sim.”

De repente, ouviu-se um estampido. O corpo do homem tombou na neve com um rombo no peito. Carlmann se escondeu atrás da parede e ficou esperando a retaliação. Olhava pela fresta na janela, via apenas o corpo estendido no chão, e logo se escondia novamente. Ficou assim um bom tempo, até decidir sair. Correu até o corpo quase soterrado na neve, e juntou todas as suas forças para levá-lo para dentro.

Deixou o cadáver estendido no meio da sala. Era um homem jovem, com roupas relativamente novas. Encontrou uma carteira. Fotos de uma mulher e crianças felizes. Um documento de identidade. O homem que acabara de alvejar nasceu no dia em que sua última ação militar aconteceu. Ficou contemplando o corpo e o documento por um tempo, pensando no que fizera.

“Malditos nazis! Eu saberia se a guerra tivesse acabado. Isso é um truque! Não irão me pegar!” Tirou a faca da baínha,e começou a cortar o cadáver, como fazia com os animais que alí entravam e nunca mais saíam.

Nevou muito naquela noite. E o cheiro de sangue pairou no ar por muito tempo.

Vem dançar comigo

Cotidiano Nenhum comentário

A história do filme é mais ou menos a seguinte: um dançarino resolve inovar nos passos de dança de salão. Porém, os membros da Federação de dança não querem isso - passos novos implicaria numa mudança no estatuto, em aperfeiçoamento dos professores, etc., etc.. Faltando um mês para a final do campeonato de dança, sua parceira o abandona, e ele resolve ensaiar sozinho. Até que a faxineira desajeitada do salão se oferece para fazer par com o cara.

Claro… o restante do enredo vocês já sabem. Durante o filme inteiro os vilões tentam impedir a vitória dos mocinhos, e no minuto final eles conseguem dançar, que era mais importante do que ganhar o troféu.

Esse filme passou esta semana, na Band. E toda vez, eu vejo até o final. Porque apesar da história clichê, é um belo filme, daqueles que toca o coração, e te faz ter vontade de entrar numa escola de dança para aprender o passo doble.

Atire a primeira pedra

Mídia 6 comentários

Recebi pelo Twitter do Träsel um link para o blog da Martha Medeiros com a seguinte observação: Encontro de titãs da malice universal: Martha Medeiros entrevista Thedy Correa. Dá pra ficar pior?

Eu achava que era o único que não gostava dos textos dela. Não gosto dessa coisa de auto-ajuda, feminismo e conflitos melodramáticos de mulheres balzaquianas semi-burguesas. Muito superficial pro meu gosto.

Pois bem, eis que entro no blog da escritora e uma coisa chama a atenção, e não está em seus textos. São os comentários. Oi Martha, sou tua fã de carteirinha! Ou Martha, te amo. E tem espaço para o clichê você toca fundo no coração das pessoas. Que eu saiba, quem faz isso é cardiologista, mas vá lá…

Nenhuma crítica. Ninguém contra. Tampouco um não é bem assim bem educado. Se bem que, na internet, onde as pessoas escondem o rosto com uma máscara de pixels, é difícil encontrar uma opinião contra sem ser radical ou estúpida. Críticas construtivas são raras. E pelo jeito, impublicáveis em alguns blogs.

Então, pra que serve a tal interatividade com o leitor, se não há interatividade, ou um livre debate de idéias? Lendo o blog da Martha Medeiros, e principalmente os comentários, me senti induzido a gostar dela, como se o contrário fizesse de mim um ET anti-social.

As mídias evoluem. Os leitores, zumbis passivos, não.

P.S.: Bah, texto sério demais. É o TCC me fazendo perder as estribeiras. Mas também, se faz necessário, para provar as pessoas que não sou apenas um ser engraçadinho neste mundinho fashion do jornalismo.

« Postagens antigas